José da Silva. A luta perdida
José da Silva. A luta perdida Tudo começou quando decidiu sair do Pernambuco rumo a São Paulo. Achou que viveria melhor lá. Mero engano. Trabalhava quase como escravo numa metalúrgica. Em troca, sua saúde se esvaia na química que lhe invadia o pulmão. Seus braços doíam como se uma manada os tivesse pisoteado. Os olhos já não enxergavam direito. Possuía a aparência de um homem dez anos mais velho. Além de aturar a humilhação de seus superiores. O salário não valia isso. Sob goles de cachaça, depois do expediente sonhava com o dia em que mudaria aquela situação. Algo era preciso. Conhecia histórias de homens que mudaram suas vidas duma hora para outra. Precisava fazer alguma coisa. Pelo menos tentar. Eis que numa manhã acordou decidido. Antes de sair de casa fez sua rotineira oração. Despediu-se da mulher e das crianças. Sentia que aquele era o dia. No fundo, sabia que necessitava do serviço. Um sujeito sem estudo. Mais um nordestino exilado no Sudeste. Esposa e três filhos. Mas estava convencido. Não podia continuar assim. * * * Entrou na firma tremendo. Previa algo. No início pensou em desistir de seu propósito. Era loucura. Tinha família. Foi quando o chefe lhe gritou no ouvido: - Hora de trabalhar! – e empurrando-o para a máquina – Tá esperando o quê? A produção não pode parar. José não entendia porque o tratavam desse jeito. Então, olhou para os caríssimos ternos dos empresários que desfilavam pelos corredores, carros importados no estacionamento, a gigantesca construção daquela empresa e enxergou o trabalho de outros homens iguais a ele naquilo. Mas quem eram eles? Ninguém sabe. Enquanto junto com seus companheiros penava em prol daquilo, os nomes dos estilistas, engenheiros e arquitetos eram ostentados. De repente, um estouro. Zé surtou. Com uma marreta, esbagaçou a máquina que operava. O gerente tentou intervir. Quebrou outra máquina. Estava feita a revolução. Os chefes se esconderam. Trancaram-se em suas salas, enquanto uma procissão revoltosa caminhava pela fábrica quebrando qualquer coisa no caminho. E ele liderava-os. Bradava feito um general no campo de batalha. Seus colegas, naquele momento, tinham-no como um rei. Era uma violenta greve que se confundia com um sentimento de vingança. A polícia apareceu uma hora depois, quando quase tudo estava destruído. Caos. A rua estava tomada pelo exército operário. Os moradores de uma favela próxima dali juntaram-se a esses homens. Identificavam-se com eles. Sindicalistas surgiram do nada apoiando os trabalhadores. Um turbilhão em chamas fazia guerra. Paus, pedras e todos os tipos de objetos voavam. Bombas de gás lacrimogêneo. Tiroteio. E os revoltados gritavam: - Vai prender bandido! Vai prender bandido! Pela exaltação do nordestino, logo perceberam quem era o líder do movimento. Tentaram prendê-lo. Reagiu. Atiraram nele. Revolta. Mais tiros. Gente correndo. Silêncio. O corpo do pernambucano sem vida no chão, perfurado por balas, mantinha os olhos abertos e o semblante furioso. O policial que lhe baleou não ousou encará-lo. Chegou a imprensa. Os repórteres sensacionalistas gravaram o cadáver e entrevistaram um PM. Nos jornais, disseram que tiros, vindos com certeza da favela, haviam matado um homem numa manifestação. Seu nome e o motivo do protesto nem foram mencionados. Alguns favelados presos. A empresa se reconstruiu. Demitiu todos os funcionários. Mais uma família Silva cata papelão. Flantuares
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