Grupo de Escritores da UniABC
Grupo de Escritores da UniABC
quarta, 30 abril, 2008
José da Silva. A luta perdida

José da Silva. A luta perdida

            Tudo começou quando decidiu sair do Pernambuco rumo a São Paulo. Achou que viveria melhor lá. Mero engano. Trabalhava quase como escravo numa metalúrgica. Em troca, sua saúde se esvaia na química que lhe invadia o pulmão. Seus braços doíam como se uma manada os tivesse pisoteado. Os olhos já não enxergavam direito. Possuía a aparência de um homem dez anos mais velho. Além de aturar a humilhação de seus superiores. O salário não valia isso.

            Sob goles de cachaça, depois do expediente sonhava com o dia em que mudaria aquela situação. Algo era preciso. Conhecia histórias de homens que mudaram suas vidas duma hora para outra. Precisava fazer alguma coisa. Pelo menos tentar.

            Eis que numa manhã acordou decidido. Antes de sair de casa fez sua rotineira oração.  Despediu-se da mulher e das crianças. Sentia que aquele era o dia. No fundo, sabia que necessitava do serviço. Um sujeito sem estudo. Mais um nordestino exilado no Sudeste. Esposa e três filhos. Mas estava convencido. Não podia continuar assim.

           

            *                                                       *                                                           *

           

            Entrou na firma tremendo. Previa algo. No início pensou em desistir de seu propósito. Era loucura. Tinha família. Foi quando o chefe lhe gritou no ouvido:

            - Hora de trabalhar! – e empurrando-o para a máquina – Tá esperando o quê? A produção não pode parar.

            José não entendia porque o tratavam desse jeito. 

            Então, olhou para os caríssimos ternos dos empresários que desfilavam pelos corredores, carros importados no estacionamento, a gigantesca construção daquela empresa e enxergou o trabalho de outros homens iguais a ele naquilo. Mas quem eram eles? Ninguém sabe. Enquanto junto com seus companheiros penava em prol daquilo, os nomes dos estilistas, engenheiros e arquitetos eram ostentados.

            De repente, um estouro. Zé surtou. Com uma marreta, esbagaçou a máquina que operava. O gerente tentou intervir. Quebrou outra máquina. Estava feita a revolução. Os chefes se esconderam. Trancaram-se em suas salas, enquanto uma procissão revoltosa caminhava pela fábrica quebrando qualquer coisa no caminho. E ele liderava-os. Bradava feito um general no campo de batalha. Seus colegas, naquele momento, tinham-no como um rei. Era uma violenta greve que se confundia com um sentimento de vingança.

            A polícia apareceu uma hora depois, quando quase tudo estava destruído. Caos. A rua estava tomada pelo exército operário. Os moradores de uma favela próxima dali juntaram-se a esses homens. Identificavam-se com eles. Sindicalistas surgiram do nada apoiando os trabalhadores. Um turbilhão em chamas fazia guerra. Paus, pedras e todos os tipos de objetos voavam. Bombas de gás lacrimogêneo. Tiroteio. E os revoltados gritavam:

            - Vai prender bandido! Vai prender bandido!

            Pela exaltação do nordestino, logo perceberam quem era o líder do movimento. Tentaram prendê-lo. Reagiu. Atiraram nele. Revolta. Mais tiros. Gente correndo. Silêncio. O corpo do pernambucano sem vida no chão, perfurado por balas, mantinha os olhos abertos e o semblante furioso. O policial que lhe baleou não ousou encará-lo.

            Chegou a imprensa. Os repórteres sensacionalistas gravaram o cadáver e entrevistaram um PM. Nos jornais, disseram que tiros, vindos com certeza da favela, haviam matado um homem numa manifestação. Seu nome e o motivo do protesto nem foram mencionados. Alguns favelados presos. A empresa se reconstruiu. Demitiu todos os funcionários.

            Mais uma família Silva cata papelão.  

             

             

                                                                    Flantuares



postado por Sérgio Simka as 07:26:01




0 comentários:
Comente este post
Início
Perfil
sergiosimka
Meu Perfil

Meus Links
GigaHoteis
GigaFoto
GigaColor
GigaBusca
Dominios
Hospedagem de Sites

Palavras-Chave
Silva
luta
metalúrgico
papelão

Favoritos
Não há favoritos.

adicionar aos meus favoritos


Colaboradores do Blog
Sérgio Simka

Comunidades
Não há comunidades.

Posts Anteriores
Tolerância e Compaixão
Fora da estrada
OFICINA LITERÁRIA
Os Toxic twin
O dom da escrita
Nenhum Pássaro no Céu
PORTUGUÊS não é um BICHO-DE-SETE-CABEÇAS
O homem do bar
Era água!
Um momento

Arquivos
2008, 01 julho
2008, 01 junho
2008, 01 maio
2008, 01 abril
2008, 01 março
2008, 01 fevereiro
2008, 01 janeiro
2007, 01 dezembro
2007, 01 novembro
2007, 01 outubro
2007, 01 setembro
2007, 01 agosto
2007, 01 julho
2007, 01 junho
2007, 01 maio
2007, 01 abril
2007, 01 março
2007, 01 fevereiro
2007, 01 janeiro
2006, 01 dezembro
2006, 01 novembro
2006, 01 outubro
2006, 01 setembro
2006, 01 agosto
2006, 01 julho
2006, 01 junho

23483 acessos


Revelação de Fotos | Registro de dominios por R$ 19,90 anuais | Hospedagem de Sites com 5 Gb de disco por R$ 9,90 mensais | Uni7 | CRIA TEU UniBlog!