1º Pedaços - Crisley Ladeia
Restos de lembrança
Resquícios de fantasia
Roem as entranhas
Ruminando as poesias
Pedaços de amizade
Poeira de estradas
Panfletos de viagens
Pantufas de pelúcia
Saudades de uma canção
Sinos da igreja antiga
Silêncio no coração
Sementes Secas Sem Vida
Assim eu era
Antes de tudo
Agora - só quimera
Amanhã? Nem isso
2º Urbanismo – Eliel Carvalho Ferreira
Joguei no asfalto
A lira dos vinte anos
E esperando... Cansei
Pela poesia urbana e alegre
A espera de uma alma florida
Entre as tristezas dos arranha-céus
Há um diabo de sorriso colorido
E o olhar que de tão incandescente
Faz indecentes as palavras do poeta
Como resposta o poema é triste
Cheio de sexo, luzes e aspirações
No sopro do suspiro algo se escreveu
Falácias, embriaguez, luxúria, filosofia
Pena não ser o gosto do doce desejo
Nem a beleza da contemporânea expiação
A mão pesada então segura o lenço
Que de tão fino é frágil como teias
Acalmam as frustrações do rude
Boêmias, garrafas, palavras
O sabor será sempre o mesmo
Incontestável
Amargo
Insípido
Inspiração nas presas do aracnídeo
E no muro do fim da rua
A única prosa é a pichação
Lírica máxima dos ignóbeis
Na semente do sêmen precoce
O versículo foge da calçada da poesia
3º TRIBUTO A ROSA – Laura Maria Figueiredo Bartoloni
Palavras... palavras... palavras...
Palavras mágicas, enfáticas
Faceiras, trigueiras, desanexas,
Complexas, desconexas.
Palavras que comandam
Significados e significantes
Numa prosa fascinante
Palavras noviças
Saídas a todo instante
De um léxico constante,
De um mundo singular e inconstante
Que para entrar,
Licença tem que falar.
Palavras proseantes regidas
Por uma mente brilhante,
Como a uma Orquestra de som constante
Que bailam num ritmo inebriante,
Como transeuntes incessantes
Passando em um movimento alternante
Do complexo ao simples
Do concreto ao irreal
Do regional ao universal.
Palavras com cores, aromas e sabores.
Cores de Rosa,
Aromas de Rosa,
Sabores de Rosa.
4º Paranóia - Ana Claudia Siqueira Dias
Não,
Saia da minha cabeça,
Você não pertence a mim.
Eu não sou assim!
Quando penso que desistiu de habitar meus sonhos, minha vida,
Logo aparece você,
Para corroer minha mente, sufocar meus pensamentos.
Eu me arranho,
Me corto
Fujo
Luto.
Luto em vão.
Estou tornado.
Queimo retratos,
Misturo os fatos,
Meu coração maltrato.
Aperto meu corpo
Fico louco,
Fico frio,
Cometendo mil desvarios.
Mas depois que você se vai,
Fico sem jeito,
Sem chão.
Retomo a consciência,
E aplico-me penitências
Daí, você, o ciúme,
Esmorece e passa.
Porém, sei que vai voltar,
E terei novamente que
Lutar,
Lutar em vão.
4º A primavera do século XXI – Flavio Antunes Soares
A primavera despiu-se
Devido ao forte calor de sua beleza
Uma falsa beleza
O seu florido suor
Banha a fatigada face da terra
De semblante agonizante
E dissimuladamente
A primavera sorri.
Uma flor nasce no asfalto
Tão bonita e esquisita
Mas instantaneamente tomba
Em fatais espasmos de dor
Cancerosa em suas pétalas.
Chorem aqueles
Que já foram tão belos um dia
E que hoje encaram os espelhos de olhos vendados
E rezem pela primavera
Esse cadáver que recusou-se a ser enterrado
E preferiu ser cremado
Nos venenosos raios solares
E ter suas cinzas espalhadas no ar
Que os tufões sempre levam
Pra passear na fumaça.
5º Didática do Esmorecer – Laura Lucy Dias
A garganta seca, oca, pouca,
Incessante, maçante, lancinante
De tanta voz cuspida de forma louca
Num vácuo de idéias flutuante.
Nosso passo dado, parado, inacabado
Numa desculpa discursiva, depressiva,
Redundante em seu fundamento infundado,
Uma mediocridade moderna e massiva.
Meu sangue pouco na latrina seca...
Meu gosto pouco na garganta intrínseca,
Veiculada na mácula de lembrança alguma.
Passar tempo, passa o eco tosco,
Os dejetos de projetos ficam conosco
E em nosso lugar tanto faz, nem peso e nem pluma.
6º Dois Pontos Parágrafo – Ademir da Silva
Quantas vírgulas me pausam!
Entre aspas, sou um só pensamento;
Entre parêntesis, explico ao ponto final:
Deixe-me ser reticências...
7º Amor e Ódio – Rodrigo Marchezoni
Amor e Ódio é uma bela jovem
De manhã seu nome é Amor
Planta flores em seu jardim
Rosas vermelhas te trazem calor
Amor e Ódio é uma bela jovem
Mas de noite seu nome é Ódio
Embriagada pisa sobre o jardim
Tomada pela vingança sem remorso
Amor e Ódio é uma bela jovem
Viva, bela e irradiante
Livre para voar
E surgir a qualquer instante
Amor e Ódio é uma bela jovem
Louca, vulgar e excitante
Livre para voltar
E partir a qualquer instante
Amor e Ódio é assim
A mesma adolescente de sempre
Sente o mundo ao seu redor
E sabe que o mundo lhe sente
7º PARTIDA – José Carlos Basílio Júnior
Veste sua farda mais nova,
Que pela mãe fora engomada.
Amarra, então, as botas já engraxadas...
Dispõe cuidadosamente a boina
Em sua cabeça semi-raspada.
Do guardo roupa, orgulhoso, retira a arma,
E mala por ele arrumada.
A mãe o acompanha até a estação,
Tristes, aguardam a chegada do trem.
Ela, com aperto no coração,
Se segura para não chorar.
Não querendo mostrar sua tristeza
Nem a ele, nem a ninguém.
Acenos pela janela do trem,
E tudo que ficou na estação.
A mãe, então, se derrama em lágrimas,
Dizendo adeus com a mão.
Do trem, olhando ao seu redor,
Café e algodão é a paisagem..
A mãe acenando na estação
E tudo o que ficou na imagem...
Sabia que cumpria com seu dever de cidadão,
Que havia alcançado a maioridade...
E que trazia no peito, lá de sua terra,
Uma imensurável saudade.
8º Morte – Angelica Fernandes Navas
Dor
que me consome a alma
já cansada do meu ser.
vida
que já não é mais minha
esquecida...
terminada em poesia.
9º A questão do passado em minha geração – Cristiano Alexandria de Oliveira
Aluga-se este espaço! 2809-2007
Eu realmente estou extenuado de tudo.
Pego um poema romântico para ler.
Saboreio alguma coisa de passado nos olhos.
Efígies que não são minhas.
E tudo se esvai.
Habituei-me a ler o jornal. Tudo o que eu preciso está no jornal.
O mundo como deve ser.
O mundo visível. O mundo do jornal.
Passo meus dias pensando e ruminando notícias de jornal.
Para sentir-me leve...
Chego a uma roda de amigos e faço explanações sobre fatos de jornal.
Eu gostaria muito de estar falando sobre metafísica,
Sobre questões amorosas, sobre qualquer outra coisa.
Mas eu sou do tempo em que a não-notícia
É nâo-diálogo. Sou do tempo em que se diz "não" para quase tudo.
Um tempo controverso,
Porque meus amigos pensam que isto é muito liberal.
Estou esfalfado de ouvir como "aquele tempo era bom",
Como as coisas pioraram, como as pessoas mudaram,
E como elas eram melhores antes.
Minha geração cresceu num mundo insólito.
É provável que a tecnologia faça muito mudar ainda,
Mudar para melhor, para mais rápido, para mais fácil.
Porque o meu tempo é de mudança,
Nem que seja para pior.
E esses conceitos de pior ou melhor são relativos demais.
Fiquem com a saudade, que a nova geração vem aí com a mudança.
Queremos ser diferentes do passado. Só isso.
Não importa se isto é pior ou melhor.
Não importa se vamos perder valores - valores podem ser manipulados.
Queremos ser novos, queremos ser outros.
Podemos banir esta comparação fajuta com o passado
Se nos tomarmos tão diferentes dele que nem possamos ser comparados.
Isto não é vencer nem perder. É mudar.
Minha geração quer insulamento total do passado,
Não nos importa qualquer adjeíivo'para o passado.
Se for belo, continuará belo. Se for triste, continuará triste.
O passado não permite mudança. Mas os adjetivos são mutáveis.
Queremos, apenas, auntenticidade.
Pego um jornal. Estou cansado de tudo. Até do dia anterior.
Tento memorizar os assuntos. Passo pela seção "há 150 anos atrás" com desdém.
Leio sobre política, mas não tenho idoneidade para comentar.
Memorizo os assuntos.
Na seção de esportes, sou fálico. Deliro com as brigas entre torcidas.
Sobre o caderno da cidade, crítica à pichação em muros.
Mais à frente, aplausos para um novo corte de cabelo tingido por spray.
Dizem que o autor é francês.
Mudança. Esta palavra não me sai da cabeça.
Amasso o jornal inteiro.
Despejo-lhe álcool. Risco-lhe um fósforo e atiro-o pela janela.
O jornal cai no salão de festas do prédio.
Cai ainda em chamas, é só o segundo andar.
Eu rio um pouco.
erre-esse-erre-esse-erre-esse-erre-esse
Mas ninguém ouviu.
O jornal queima lá embaixo e, dentro de mim, uma força me acende.
Fiz um ato que me diferenciasse.
Não pelo jornal inflamando. Nem pelo poema que abandonei dentro dele.
Muito menos por tê-lo carbonizado sem ter lido o horóscopo.
Era domingo.
E eu queimei
o jornal
sem ter
Sido
a seção
de
empregos!
Então, sentei-me vagarosamente no chão...
e chorei.
Chorei soluçante e descompassadamente...
Como um desabitado que se desprende da concepção principal da alma.
10º O dia em que nenhum poeta poetizou - Mirella Costa Soares
Amanheceu triste
Frio
ninguém acendeu o sol
as nuvens choravam
uma deprimente garoa
e o vento assobiava
uma melancólica canção.
Nas árvores os pássaros
Não cantavam
As flores se viram
Sem beija-flor
Nas praças
Os Jovens não namoravam.
Passou o dia veio a noite
Adormeceram e ninguém sonhou
No céu não tinha nenhuma estrela
era uma penumbra sem luar
e já passado da meia-noite
em uma casa se acende uma lâmpada
que reflete no céu como uma estrela
Seria alguém a fazer poesia?
Era um poeta procurando uma rima.